terça-feira, 12 de maio de 2026

pois foi...

Foi em 1996, na Praia da Madalena, em Gaia…
Tinha ido de bicicleta ao talho comprar uns bifinhos para sustentar também a barriga da Paulita… Quando a janta ia ser preparada soou o alarme. Fomos de mochila feita para o hospital de Mafamude. O médico sorriu-nos, viu o estado da jovem mãe e mandou-me embora. A ausência deu-me a mão e saiu comigo. Fora do hospital perguntei-me quem era… e para onde seguiria. Para casa? Para os meus pais? Era um momento que nunca tinha sentido. Desci Cândido dos Reis para a Ribeira de Gaia. Tinha perdido o apetite pela força das circunstâncias. Havia um Bar, “a outra Margem” de uns amigos onde já tinha feito várias exposições. Comecei por aí… a beber uma cervejita depois doutra… não me deixaram pagar. Saí para a Praça Sandman a ver a noite doutra maneira… Mirei o Douro mai-lo seus caprichosos reflexos… Fui andando, poeta fora, pintor adentro pelo tabuleiro inferior da ponte de D. Luis. Cheguei à Ribeira a olhar para o promontório do hospital, enorme   edifício rectangular, janelas todas acesas, luzes de todas as batalhas; que Som para dar à Luz!!! (disse poeta??) e baixei a outro Bar. Ao “Cais” do amigo João onde já tinha feito várias exposições… Ganhei juízo e não bebi cerveja. Fui bebendo uns fininhos curtos, chamam-lhe Lambrêtas, umas encostadas nas outras… Não me deixou pagar, o João. Saí do Cais amparado a mim mesmo sem saber rumo seguinte. Fui passeando a dar comigo no Túnel da Ribeira com a respectiva saída para o “Real Feytoria”. Adivinhem; outro Bar de pessoas amigas que por acaso também já tinha feito umas mostras de pintura… Não sei o que bebi, foram várias misturas… começava o ribombar da noite e eu fui na corrente… Se me deixaram pagar ou não, são memórias doutro rosário; os trocos poucos que tinha no bolso chegaram intactos a casa. Seriam umas três da matina quando subi Mouzinho da Silveira para a Torre dos Clérigos a fim de chegar a Carlos Alberto, a fechar a noite no “Actos”. Já adivinharam. Outro bar de um amigo onde já fizéramos uma dezena de exposições. Por sinal o nosso local talismã para a nossa arte pictórica. Lá estava o António, com a sua simpatia e compreensão a sapatear-me os costados e a “obrigar-me” a beber para festejar enquanto a sua Sala de Chá não fechava… Seriam umas cinco e pouco da manhã quando saímos do Porto para rumar a Gaia. O António morava em Gaia. Por isso todo aquele GPS inconsciente a guiar os meus passos. Chegámos à praia, estava o dia a nascer. Na barriga, uma fome de morrer. Na sertã dos fritos, os bifes da Paulita… Depois duma rápida chuveirada, apanhei o autocarro 57, saí na paragem mais próxima da maternidade, comprei um livro num quiosque dali; “não há longe nem distância” e foram estas as flores com que me apresentei como pai… Estavam ambos embrulhados um no outro, a dormir. Olhei para o Porto, daquela alta janela, e toda aquela cerveja da noite anterior me saiu pelos olhos…

04 Maio 2017

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.