Regresso a um Porto rebelde que atravessa todos os Douros sem nenhuma ponte em Trenós. Adeus Pólo Norte. Este caos cosmopolita sem fronteiras ganhou um fio-de-prumo que equilibra toda a abstração do olhar. O granito, pesado e intemporal, decide-se finalmente a levitar. A gincana das perspectivas e o astrolábio das oscilações dançam de mãos dadas à deriva no pano-crú. A inteligência artificial coça a peida ao ministro e ao general. Todos os misséis são de pigmento e zarcão. Uma anedota local diz que esta cidade ainda tem no sítio os tomates dos seus Tripeiros. Sentimentos antigos entre Poetas, Pintores e Oleiros. Pintar o Porto na distância é fácil. Três camadas de azul, azul variado, em movimentos horizontais, verticais, tanto faz. De preferência com um rolo meio esgrobiado, já gasto. Depois uma espátula, pode ser um cartão de crédito, mesmo sem crédito, esguio e dançante. Depois um pincel dois pêlos, magrinho, fininho até ao tutano, a desenhar melodias transversais. Algum granito escorado em cabilhas ocres. Janelas, muitas. Degraus, muitos degraus. Roupa a secar. Manadas de gaivotas doidas a guinchar risos estridentes. Quatro pinceladas de nostalgia. Meia dúzia de lágrimas. Algum papel-cenário a voar. Ah, e pombas. Levar a lume brando, noite adentro até o dia bater de fininho na janela. Depois, quando se sai do Porto, no espremer de todas as sensações sentidas e vividas, aparece, em jeito de rodapé, uma caricatura sublime que concentra tudo numa espécie de Juízo-final... sobra sempre a obrigação de regressar.

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