quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

199

Voltei a casa em passos ansiosos de subir de novo a escada. Havia tinta ainda a escorrer. A puxar-me a sede. O efeito prometia novos pontos de partida. Preparei um Porto Tónico, meia azeitona numa rodela de limão. Apenas efeito de parecer bem. Trinquei a azeitona. Era amarga. Escolhi nova música. Yes - Tales from Topographic Oceans. Som a embrulhar o ambiente em crescente.

O rolo, ansioso, já estava colado na parede. Na parte instrumental ajudava com assobios. Agora levava as azuladas nocturnas de mãos dadas para o dia. Queria no mesmo espaço transformar a grande escuridão na luz enorme. O fogo ficaria pelo meio. A grande tragédia do naufrágio ficaria a negro, em plena brancura. Idéias, apenas idéias. 

De degrau em degrau, parava eu a estudar os efeitos. Pobre parede, toda ela tremelicava. A sua dimensão era a asa perdida onde o Ícaro derreteu o sonho. Valia-me o saber voar tendo por baixo um colchão de penas já compridas. Penas esticadas em paradeiros ainda por mapear. A tinta, indecisa, não sabia por onde continuar a escorrer. A minha solidão estava feliz. 

Tanto que ficou a cantar no silêncio da música terminada. Num dó de peito mais firme, a estrilhar os agudos, a cadela ganiu. E com razão coitada. Era a altura de fazer mais uma pausa. Desci da escada calmamente e agradeci, com uma vénia, os aplausos do público. Dez minutos, toda a plateia de pé, a bater palmas. Eu estava comovido. Até um ramo de alface atiraram para o palco. Alguém gritou; - Ah Grilo cantante!!

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.