Acabadas as curvas das cores quentes fiz uma pausa. Dancei meia volta com a escada e olhei o efeito do primeiro andamento. Luz e aquecimento na morada dos marinheiros. Pausa para um café. Pausa para um trocar de tintas. Funambulismos seguintes em todos os azuis. A música? Virei o disco e continuei com o mesmo senhor Hammill, Fireships. “Don’t be afraid, there’s no dark unknown…” E relembrei o conto do senhor (outra vez) Allan Poe, Uma Descida ao Maelström … Iam começar as tormentas.
Embrulhado em azuis escuros vários, subi a escada e comecei por cima, no canto esquerdo da parede. E recomeçou o bailado das tintas. O rolo, treinado para malabarismos mágicos, fazia maravilhas. Dentro da pintura, eu estava agora a inventar a noite, o lado escuro do pesadelo. Volta e meia parecia surgir um monstro, um fantasma arrepanhado no deambular do rolo.
Os escorridos lacrimejavam. Aqui escorre tinta, dizia Raul Brandão. Os efeitos desejados, e dada a textura anterior, ganhavam uma dimensão muito própria. A música acabara e aproveitei para fazer uma pausa. Saí da sala, saí da casa e fui ao jardim fumar um cigarro de maresia. Respirar ar puro e sorrir. A cadela sorria a meu lado. Estava uma tarde cinzenta a querer fugir em farrapinhos de azul. O mar murmurava, tranquilo. Ao fundo, na linha do horizonte, o Titanic emergia das águas. As sereias coçavam as escamas no barão. O Adamastor catava a pulga com uma espingarda de chumbos, da Diana. Uma manada de gaivotas entupia o buraco do ozono.
Fumei um cigarro de sargaços. A cadela espreguiçou-se. Na casa da Falésia, da parte que desce ao mar, o perigo é convidativo. Fumei outro cigarro, agora de adrenalina...

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