terça-feira, 24 de dezembro de 2024

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Ficámos ali estáticos a medir os cabedais. Baixei-me a fazer-lhe uma festa no meio das orelhas. Levantou uma pata e raspou-me a perna. Baixou a cabeça e tremeu. O bichano andava a rapar frio nos dentes há algum tempo. Era uma radiografia da fome. Aninhei-me a sentar na soleira da porta do Moinho sem gente. O cachorro subiu-me colo acima, acomodou-se nas minhas pernas, buscou com os dentes o meu braço esquerdo, ferrou-me duma forma muito suave, estremeceu e desmaiou! Ou adormeceu, sei lá! Eh!! Fôda-se!! Nume bais morrer nos braços,  ò Isquinha!! Apertei-o contra o peito e senti-lhe o respirar. O coração a trepidar. O calor da sua energia a transbordar para mim. Por momentos fiquei com a estranha sensação de sermos um corpo uno e só. Apertei-o mais contra mim e fechei os olhos. Pareceu-me ouvir um fusível a queimar no meu quadro eléctrico. Puff. É melhor assim. Sentia a consciência a sorrir enquanto me segredava a dizer que a maré vaza estava de namoro com os meus pés rasos. Eu sentia as cóciguinhas. E também sorria. Tinha agora um sofá como uma nuvem de algodão, embebida em licores de absinto que me fazia viajar. O anjo que me veio preencher a ficha disse para eu não reparar no tamanho que tinha. Para poupar energias aladas, reduziu-me ao tamanho duma fava. Duma fava? Era a melhor protecção que podia ter. A casca era muito rija, tinha muito ferro. Mas não podia ser uma noz? Ui, agora nesta época do Natal as nozes estão caríssimas. Assim, fomos viajando de fava até ao planeta dos congros. Na paragem de Gramido, um fá sustenido, um peido espremido e de côco, um batido. Ouça amigo, isto tem algum jeito de sonho?? E prontos! Lá chegam as melgas a meter a fragata em seara alheia!! Daqui a pouco ouvem-se dois tiros… Ok, tenha calma. Tenha muita calma! Sigas as instruções, ali, como pode ver daqui, tem uma cabeça de peixe podre junto da margem. É a sua nave de fuga. O código é um sopro nas guelras. Acione a tecla três. E não olhe para trás!

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