terça-feira, 5 de novembro de 2024

175

Alguém abanou a casa e acordei. Era o sarampo. Tudo às pintas vermelhas. Um arrôto fugidio com sabor a Prozac Blue. A manhã, de vestido transparente, esticava os braços a dividir preguiças. A tempestade amainara. Dez vezes abri os olhos, onze vezes os fechei. A cabeça, a rebolar, foi dar uma volta pela sala. A garrafa vazia, estava com mais sede do que eu. Esperei que a cabeça voltasse para colocar os óculos no barómetro dos equilíbrios.

Passei a noite dos medos a limpar garrafas e a coçar os Alfredos. Livros vários espalhados pelo chão. Aos poucos o murmurar do atlântico ia pondo o som mais alto. Já sei onde estou. Nau Frágil. Outro sonho se pusera a caminho. Cocei a cana do  nariz na ponta dos olhos. Catei uma remela crocante. Um pequeno diamante da alma. Espreguicei-me e dei liberdade a um vapor. Saíu a assobiar pela sala fora. Ouviu-se um fantasma a saltar pela janela. Contei até vinte, até quarenta, aos cinquenta levantei-me. Contei até dez e deitei-me. É preciso ter calma. Primeiro; ia-me levantar para quê? Hein? Continuei mais um bocado a estudar o andamento que daria ao dia. Olhei para o lado. O fundilho de um copo de cristal ainda tinha dois dedos de um líquido amarelo familiar. Olha, olha… Limpei o resto, tirei os óculos, abri um livro a meio e tapei os olhos com ele. Pus as mãos sobre a barriga, cruzei as pernas e fui à minha vida.

Foi uma ressonância magnética mais duas horitas. Acho que sonhei com o Botticelli...

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