Cheguei a casa estava a tarde a meio. A fome fazia ventania firme no beiral das minhas fraquezas. Coloquei o marisco, aquilo é marisco? Coloquei aqueles chispinhos de cavalo-marinho numa saca plástica e guardei no frederico. Grelhei um bife do vazio, que tinha no estômago, fiz umas torradas dum pão antigo, se calhar vitimado também por um naufrágio, abri uma garrafa de tinto esquecido, a rolha até fez plôp, fiz uma salada de nêsgas com nozes e papaia seca. Que grumê!! fiz a mesa na soleira da janela e fiquei a olhar o mar.
Abri uma bocadinho dos vidros para subir o som das ondas a cascar nas rochas. Tudo tão bucólico, tudo tão nostálgico. Até a fome estava de morrinha. Ouvi o bife a chamar por mim. O pão crepitava. Devia ser da família dos crepes. Com as beiças a salibar, vinte por cento do bife foi dentro. Foi um exagero. Fiquei meia hora a mastigar. A mastigar. A mastigar. Até fiz um poema mental. Mastigo.
Enquanto mastigo, o mundo pára por meu capricho e castigo. Mastigo, ela chegava de vestido curto, e eu dava-lhe um jeito, contra o postigo. Num escrevas isto! Nem sabes quem é ela. Mastigo, nada como um bom bife e um belo abrigo. Nada como uma boa pinga a embalar o presigo. As percebes riam e respiravam de alívio. Enquanto houvesse bife havia esperança. Uma esperança fria, diga-se. Mastigo. A papaia seca pedia mais binho. Aos poucos, a felicidade alcoólica, a barriga a fermentar e o respectivo foguetório faziam a festa.
Ok, reconheço, o bife era um bocadinho duro, nem sei se era bife, mas a fome é uma senhora cheia de paciência e eu tinha tempo. E dentes. A luta prometia. Fui deambulando pela sala fora, a roer, a roer, de copo na mão, a frinchar a enorme biblioteca que ornamentava metade da sala. A raspar o dedo pelas lombadas, a tomar nota dos nomes e dos autores. De repente, o bife ficou-me preso nos dentes.
Ali, diante dos meus espantados olhos, uma edição pirata, só podia ser pirata!! O livro nem editado estava!! As famosas crónicas de Serafim Sepânk!!

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