sexta-feira, 2 de agosto de 2024

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- Dei cabo do negócio do meu pai? Como assim?? - Bem, se calhar nem te lembras, terias uns seis, sete anos… Foi um alarido em S. Roque! Pura e simplesmente desapareceste! Sumiço puro e simples. A tua mãe em pânico, aos gritos, o teu pai aos berros, panicado, a vizinhança esganiçada, a chamar por ti, a ganapada toda a frinchar bueiros plubiais, a polícia já alertada, e só quando chegaram os cães da GNR para cheirar o teu cheiro, é que te deu para sair debaixo da cama dos teus pais, dares uma looooonga espreguiçadela, e acabares a perguntar que chinfrineira era aquela… Nem sei se alguém te chegou a roupa ao pêlo mas foi um enorme alívio quando apareceste. - Ah, sim, lembro-me bem desse romance esquecido. Acho que bebi um copito de Porto a experimentar sensações… Mas porque dizes que dei cabo do negócio? - Atom, meu!! O teu pai era vidente!! Ora, tão vidente, tão vidente, e num manjou que estavas debaixo da cama?? O povo aos poucos foi filando que as bidências eram só nas estrelas e a mercearia voltou ao normal… Lembro-me que tinhas ratos-chinos que corriam livremente pela casa… E depois os pombos… - E tu?? - Eu?? Que tenho? - A tua tanga do vinho dos mortos??  - O binho dos mortos?? que binho dos mortos?? - Ai num te lembras?? Uma vez ia com a minha namorada a subir S. Roque, e estavas tu com mais meia dúzia de anjinhos a estroncar o portão de ferro do armazém do Camanho! Seria uma hora da manhã… - Ah, ok, já me lembro… Tem calma. Era o vinho do meu pai. Do Marco de Canavezes. Um verde branco cinco estrelas que ele escondia dentro dos caixões do Camanho. O Cunha nunca me perdoou tal gamanço…

Era numa fase de muita sede, muita agitação angelical… Se calhar foi por isso que nunca vi guito da herança… Também te vais lembrar de cada merda...

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