sexta-feira, 8 de março de 2024

Flor Agreste (16)

Era uma porta azul desbotada. A fugir assim  pró lilás. Belamente roída pelo sarampo do tempo. Maciça e a zurbeirar a madeira fingida. Tinha uma argola de bronze a fazer de batente. Não fazia ideia se estava do lado de dentro ou de fora. Ouvi um truz truz. Apalpei o som. Era mesmo um bater palpável, do outro lado da porta. Sim??

– quem é??

- Entre e feche (feche??

– que palavra!!) a porta. Cheirou-me a livro. Não entrei. Eu estava do lado de cá. Alguém entrou e fechou a porta. Um fantasma??

– Diga!

– Digo o quê?

– Cor?

– Azul!

– Ah, patamar da dimensão??

– Pode pôr quinze!

– Quinze??? Não será demais??

– Ponha quinze se faz favor.

– Constelação primária??

– Do segundo lado e com alguma isenção, já agora!

– efeitos cósmicos??

- Não!! Prefiro anabolismos cilíndricos!

– Anabolismos cilíndricos?? Onde vou arranjar isso?? Tem conhecimentos no cozimento de altas temperaturas?

– Desculpe?? (o fantasma abanou de esguelha)

– O Mestre Gaudi precisa de si, mas tem de ter conhecimentos.

– Ah, é secretária do Gaudi?? ( a voz soava feminina)

– Trabalho em part-time nos anos jubileus!

– Ah!! É nos anos em que o Santiago compõe telas! 

– Como??

– Tou a falar do Santiago de Compostela!

– Ah!

– Diga, o Toninho Gaudi precisa de mim?? Tem a certeza de ter batido à porta certa?

– Ouça meu senhor, esta cena da herança onírica nunca se engana. Não é o senhor que vai para Barcelona??

– Mau, mau, vinho com sulfitos, tou a ver o cardápio. Como é que sabe que vou pra Barcelona??

– Ouça, estas coisinhas da cambiante artística nunca se engana. Passa de alma para alma and sou sou, and sou sou… Sabe que  a sagrada catedral nunca vai ficar pronta, num sabe?? Mas precisa de ser continuamente continuada. Eu estou mandatada pelo mestre para lhe dar a permuta continuante das obras em curso. Mas até lá tem de preencher o resto do formulário. Não pode ser um borra botas qualquer no seguimento da epopeia. Percebeu??

– Xi…

- Vamos continuar?

– Xi… Diga-me só uma coisa, vou trabalhar sozinho?

– È claro que não. Lembra-se das vindimas em França? È uma empreitada do género.

– Ah, adoro a binhaça de Bordéus!!

-  Não me referia ao vinho. Falava da inter acção da equipa.

– Ah, digo isso porque o binho espanhol num é grande espingarda, é preciso dar-lhe sempre com gasosa. E tá a ver, trabalhar com binho gaseificado numa igreja daquelas, num sei não. As estruturas são sólidas?? Eu não me responsabilizo.

– Olhe, isso depois vê-se, vamos preencher o  formulário?

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