quinta-feira, 7 de março de 2024

Flor Agreste (15)

 Vai ser, hum, isto cheira-me a esturranço. Olhei para a tábua, ela olhou para mim. Qualquer coisa me dizia que aquela paixão ficaria por ali. Já num se viam os polícias. Peguei na tábua e calmamente a entalei no pára-choques traseiro do carro da bófia. Disse-lhe adeus e parti. E lá continuei a seguir aquela longa linha prateada  pelo brilho simpático da lua. Não, não ia para Barcelona. Mas se calhar ia. Só o tempo suficiente para arranjar dinheiro. Pra comprar o rebanho e depois seguir para o monte. Fazia de estátua com uma fisga no bolso. Ou uma espingarda de chumbos. Eu é que sou burro! Claro, fazia de estátua com um guarda- chuva aberto. Ora! Dava para a merda, dava para a chuva e dava para o calor…Já estou a ver. Quando chovesse, toda a gente se abrigava debaixo do chusso e ninguém reparava na estátua. Se viesse um bando de gaivotas pela praça, toda a gente, pimba, pra debaixo do umbrela, bem, o melhor era mesmo arranjar outra forma de ganhar peseta. Se calhar a pintura… De repente, aparecem quatro galfarros muito suspeitos e silenciosos à minha frente.

– Ó meu, dá aí um cigarrito.

– Eu também num fumo, obrigado. Reconheci-os na hora. O Zeca Tolas, o Peles, o Tarror e o Desalmado. Bingo!

– Eu avisei-os logo. Meus, foram dois chuis pela Mitra abaixo ò cheiro de alguma coisa! O carro está ali na passagem de nível. Começaram-se a rir.

– Eles pensam que são muito espertinhos, mas só vão encontrar o Tino Borralha com duas cebolas no bolso. de chorar a  rir. Mas ainda bem que avisaste porque assim atalhámos pelo campo da Belavista. Até logo. Ide pela sombrinha. E lá fiquei mais uma vez só na minha linha. Carambas. Aquela linha estava a ter muito movimento. Assim o meu pensamento filosófico estava a ser constantemente interrompido. Um apito ao longe e, da curva da Estação de Contumil, vem um comboio para cá. Pela luz mortiça da máquina, um  de mercadorias. Lá vem um tum tum suave, aos poucos a subir de volume até que quando passa ao meu lado, o baterista de mangas arregaçadas, até sua pelos cotovelos; tum-tum, tum-tum, tum-tum. Subi as escadinhas de ferro embutidas na pedra, passei pelo bairro do Ferroviário, fiz umas festas ao Tarzan, um cão enorme e meigo, zelador do bairro, subi a Lameira de Baixo e quando estava a entrar em S. Roque, passou o carro patrulha. Ainda tinham no pára-choques traseiro a tábua de brunir do Fonseca. Puff, num perdi grande coisa. Em casa, finalmente, adormeci que nem uma estátua na praça.

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